Arquiteta responsável pela concepção urbanística inicial do projeto relembra as ideias que ajudaram a estruturar o bairro planejado e fala sobre o que espera para os próximos capítulos do Reserva do Vale
Antes dos residenciais, das casas em construção, dos moradores, dos parques e dos novos empreendimentos, existia um território e uma pergunta: que tipo de lugar poderia nascer ali?
Foi diante da antiga área da Fazenda Pacaembu, em Valparaíso de Goiás, que a arquiteta e urbanista Virna Carvalho (@virnacarvalhoarquitetura) começou a desenvolver a concepção que ajudaria a dar forma ao Reserva do Vale (@cidadereservadovale) .
O projeto passou — e continuará passando — por evoluções ao longo dos anos. Isso é natural em um empreendimento urbano dessa escala. Mas uma parte importante de sua estrutura conceitual permanece reconhecível: a organização entre áreas residenciais, comércio, serviços, parques, mobilidade, espaços de convivência e grandes equipamentos urbanos.
Mais do que determinar onde cada elemento deveria ficar, o desenho buscava responder a uma ideia maior: criar um bairro em que morar, trabalhar, circular, encontrar pessoas e estar próximo à natureza fizessem parte de uma mesma experiência.
Um território que ajudou a definir o projeto
Na memória de Virna, a própria paisagem foi determinante.
Terra vermelha, relevo acidentado, vegetação característica do Cerrado e cursos d’água criavam um cenário bastante particular. Em sua concepção urbanística, ela descreve justamente a percepção de que aquele não deveria ser apenas um espaço a ser ocupado, mas um território capaz de propor uma relação diferente entre cidade, natureza e comunidade.
Essa maneira de pensar o projeto tem relação direta com algumas das principais referências profissionais citadas por ela.
Entre elas estão Ebenezer Howard, associado ao conceito das cidades-jardim; Jane Jacobs, defensora de ruas vivas, diversidade de usos e comunidades ativas; Jan Gehl, conhecido pelo urbanismo orientado à escala humana, aos pedestres e à maneira como as pessoas realmente utilizam a cidade; e Jaime Lerner, referência brasileira na busca por soluções urbanas práticas e voltadas para as pessoas.
São autores de períodos e contextos diferentes, mas que convergem em um princípio que aparece repetidamente na visão de Virna: a cidade deve ser pensada a partir de quem vive nela.
Um bairro não é feito apenas de casas
É justamente nesse ponto que o desenho inicial do Reserva do Vale começa a revelar sua dimensão.
A proposta nunca esteve restrita à implantação de residenciais.
Na concepção urbanística aparecem parques com características distintas, áreas comerciais, espaços voltados a serviços, mobilidade ativa, equipamentos urbanos e pontos de encontro.
O Parque do Mirante foi imaginado com uma vocação mais contemplativa, associado à paisagem, cultura e permanência. O Parque do Lago, por outro lado, nasceu com uma proposta mais ativa, combinando esporte, lazer e convivência. A concepção também previa a valorização ambiental das áreas próximas aos córregos existentes.
Outro elemento importante é a Avenida do Cerrado, concebida não apenas como via de circulação, mas como um eixo capaz de combinar mobilidade, comércio e vida urbana.
Essa lógica continua perceptível no atual planejamento do Reserva.
O Book Reserva do Vale 2026 apresenta uma estrutura que inclui residenciais fechados, casas, apartamentos, hubs de saúde, educação e tecnologia, Centro Comercial, Open Mall, parques e diferentes áreas destinadas a serviços e convivência.
O desenho pode evoluir. A arquitetura pode mudar. Empreendimentos podem ser reposicionados ou reinterpretados ao longo de uma implantação que se estende por anos.
O desafio está em fazer essas mudanças sem perder a coerência do conjunto.
E é justamente aí que Virna coloca sua expectativa para o futuro.
Quando aquilo que estava no papel começa a ganhar rotina
Para quem participou das etapas iniciais, acompanhar ruas, casas e pessoas ocupando o espaço provoca uma sensação diferente daquela experimentada durante o desenvolvimento de um projeto.
Virna resume esse momento de maneira simples:
“Sabe aquele sentimento de olhar pro horizonte e perceber que o que antes era só um desenho no papel agora tá ganhando vida de verdade? É exatamente assim que eu me sinto hoje.”
É uma mudança importante.
Um masterplan trabalha inicialmente com projeções: circulação, densidade, áreas verdes, usos, equipamentos e relações espaciais.
Mas uma cidade real trabalha com outra matéria-prima: pessoas.
Casas começam a ser construídas. Moradores chegam. Crianças utilizam os espaços. Eventos criam encontros. Pessoas caminham pela avenida. Novos negócios aparecem. Um lugar até então conhecido principalmente por seus projetos começa a fazer parte da rotina da cidade.
Para Virna, uma das mudanças mais significativas já pode ser percebida na relação de Valparaíso com o empreendimento.
“O Reserva do Vale tá ganhando corpo. Pouco a pouco casas vão sendo construídas, novos moradores chegam e o bairro vai se formando.”
Ela também destaca outra transformação menos física, mas igualmente importante: o reconhecimento.
O Reserva começa a deixar de ser apenas um projeto futuro para se tornar um lugar utilizado, visitado e reconhecido por quem vive na região.
Crescer sem perder a essência
Projetos urbanos de longo prazo carregam um paradoxo.
Eles precisam ter uma visão suficientemente clara para orientar seu desenvolvimento durante anos, mas também precisam ser flexíveis para responder a mudanças econômicas, sociais, imobiliárias e comportamentais.
Por isso, preservar a essência de um masterplan não significa congelar seu desenho original.
Significa manter coerência.
No caso do Reserva do Vale, Virna resume essa essência na busca pelo equilíbrio entre qualidade de vida, natureza, trabalho e convivência.
Essa combinação aparece desde a concepção inicial e permanece como uma das referências para os novos produtos que passam a integrar o bairro.
The Garden Village e uma nova forma de morar dentro do Reserva
Um desses novos capítulos é o The Garden Village (@the_gardenvillage), empreendimento também projetado por Virna e no qual ela atualmente atua à frente do marketing.
Localizado dentro do Reserva do Vale, o Garden introduz uma característica importante para a evolução do bairro: a moradia multifamiliar.
Com apartamentos de 2 e 3 quartos, o projeto traz para o mesmo território uma tipologia diferente daquela dos residenciais predominantemente unifamiliares. O site oficial do empreendimento reforça justamente uma proposta baseada em integração com a natureza, convivência, lazer, tecnologia e praticidade.
Para Virna, essa diversidade não enfraquece o conceito original. Pode, ao contrário, ajudá-lo a amadurecer.
“A mistura entre o The Garden Village e as residências unifamiliares do Reserva do Vale me parece muito interessante. É a chance de ter diferentes estilos de vida dividindo o mesmo espaço, se encontrando nas áreas comuns, nas caminhadas, no dia a dia.”
Esse é um princípio central do urbanismo contemporâneo: lugares vivos normalmente não dependem de uma única função ou de um único perfil de morador.
A diversidade de tipologias, usos e rotinas pode contribuir para que diferentes partes de um bairro permaneçam ativas em momentos distintos do dia.
No Reserva, essa lógica dialoga diretamente com a existência planejada de parques, comércio, serviços, equipamentos urbanos e espaços de convivência.
O futuro começa a deixar de ser apenas futuro
O próprio Book Reserva do Vale mostra a dimensão desse horizonte.
Para 2035, o planejamento apresentado no documento projeta aproximadamente 8 mil unidades, entre lotes, casas, apartamentos e unidades comerciais, além da presença de escolas, faculdades, hospitais, consultórios, laboratórios, centros gastronômicos, supermercados, open malls e centros comerciais. O cenário indicado pelo material é de uma população de aproximadamente 35 mil habitantes quando esse processo estiver mais consolidado.
São projeções de longo prazo e, como todo planejamento urbano dessa natureza, estão sujeitas a ajustes.
Mais relevante que o número isolado é o que ele representa: a escala da transformação que ainda pode acontecer naquele território.
Para Virna, acompanhar essa transformação tem um significado particular.
“No fim das contas, muito me encanta ver o projeto virando lugar de verdade.”
Talvez essa seja também uma das melhores formas de compreender o Reserva do Vale atualmente.
Não apenas pelo que já foi entregue.
Nem somente pelo que aparece nos renders.
Mas pelo processo de uma ideia urbanística que, aos poucos, deixa de existir apenas como desenho e começa a ser testada pela vida cotidiana.
E, como ela mesma conclui:
“Ainda tem muita história pela frente.”










